Cidades brasileiras enfrentam crescentes impactos do intenso calor

Em Porto Velho, Fórum Cidades Quentes discutiu como aliviar intenso calor com estratégias que envolvem infraestrutura, habitação e soluções baseadas na natureza

Com clima de temperaturas elevadas o ano todo e umidade típica da Amazônia, a cidade de Porto Velho recepcionou entre os dias 13 e 14 de novembro a primeira edição do Fórum Cidades Quentes, realizado pela Prefeitura de Porto Velho, com apoio da Fundação Konrad Adenauer e ICLEI – Governos Locais pela Sustentabilidade. O evento integrou a programação do Circuito Urbano, promovido pela ONU-Habitat entre setembro e novembro em campanha para o Dia Mundial do Habitat e das Cidades.

Fruto dos debates estabelecidos no XIV Encontro Nacional do Fórum CB27, realizado em Teresina, o encontro explorou como as cidades brasileiras podem desenvolver medidas de enfrentamento aos efeitos das ilhas e ondas de calor em suas políticas e planejamentos de desenvolvimento urbano e uso do solo.

Inserido no contexto de uma tendência global de aquecimento, que nos anos de 2016 e 2017 registraram recordes históricos de temperatura, o debate trouxe à região amazônica a discussão sobre como lidar com os impactos do intenso calor nas cidades brasileiras.

O Fórum Cidades Quentes reuniu 9 capitais brasileiras – Belo Horizonte, Belém, Cuiabá, Manaus, Palmas, Porto Velho, Recife, São Luís e Teresina -, cerca de 20 municípios de Rondônia  e 6 especialistas de universidades e instituições renomadas de pesquisa e implementação de estratégias para enfrentar os impactos de cenários de aquecimento em 3 painéis temáticos focados em compreender: 1. O atual panorama de aquecimento; 2. Soluções de mitigação e adaptação relacionadas a setores de infraestrutura, habitação, saúde, relações sociais e outras; e 3. Compartilhar experiências de cidades como Porto Velho, Palmas e Teresina no enfrentamento à questão.

Tendências de aquecimento

Gráfico que apresenta crescimento de frequência de Ilhas de Calor em cidades brasileiras. Crédito: Reprodução de Giovani Dolif

O efeito do ambiente construído nas áreas urbanas gera microclimas, à medida que a superfície natural é substituída pela artificial. Pavimentos, estradas e edifícios são superfícies compostas de altas porcentagens de materiais não-refletores e que ab

sorvem uma porção significativa da radiação solar, e que, em seguida, são liberadas como calor, caracterizando o fenômeno chamado de “ilhas de calor”.  Giovani Dolif, do Cemaden, apontou que a tendência desse fenômeno é de aumento da frequência em diversas capitais, e apresentou um gráfico com essas referências, durante o painel temático sobre o panorama de aquecimento nas cidades brasileiras, em que debateu ao lado de Daphne Besen, da ONU-Habitat, e Mariana Fiúza, da Agenda Teresina 2030, da Prefeitura de Teresina.

Acesse as apresentações de slides dos convidados

A rápida expansão dessas superfícies urbanas seladas e a redução de áreas verdes tornam as cidades mais suscetíveis à formação das ilhas de calor. Tal efeito pode acrescentar até 2ºC às estimativas globais de aquecimento nas cidades mais populosas até 2050, elevando os custos econômicos do aquecimento global em 2,6 vezes. Dessa maneira, essas áreas urbanas tornam-se particularmente vulneráveis a outro fenômeno climático: as ondas de calor, resultado da mudança do clima e do aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera, gerando maior ocorrência de eventos climáticos extremos e de picos de temperatura.


Em 2015, três capitais brasileiras – Brasília, Manaus e Belo Horizonte – bateram recordes de temperatura, chegando a uma média até 9 graus mais alta, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia. Há cidades, ainda, que sofrem com a intensificação do calor que já é padrão, como os casos de Teresina, Palmas, Cuiabá e Porto Velho.

Para Mariana Nicoletti, do FGVces, não há solução simples para problemas tão complexos como a adaptação às mudanças climáticas, e que a articulação de diversos setores são necessárias para gerar soluções eficientes. “As cidades têm poder de articular os agentes. É essencial engajar todos os atores em conjunto, para co-criar espaços que sejam mais habitáveis”, complementou a arquiteta Deborah Lobo, da Consultoria Go Green Amazon, durante a discussão do segundo painel, que contou ainda com a participação de Gabriela Di Giulio, da Faculdade de Saúde Pública. Cidades como Timisoara, na Romênia, implementaram ações como uma “cortina de floresta”, que ajuda no alívio das altas temperaturas, e Porto Alegre, que desenvolveu sua estratégia de resiliência de forma participativa, no contexto da parceria com 100 Resilient Cities. Uma série de soluções e conteúdo para municípios enfrentarem a questão do extremo calor pode ser encontrada no AdaptaClima, plataforma que sistematiza e disponibiliza, de forma colaborativa, informações e materiais sobre adaptação à mudança do clima.

Outras experiências brasileiras foram demonstradas por representantes de Porto Velho, Palmas e Teresina, conectadas a soluções relacionadas à habitação, geração de energia solar e criação de parques naturais.

Abertura

O Fórum foi inaugurado na noite de terça-feira (13) pelo Secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Robson Damasceno, em uma solenidade ao lado de Marina Caetano, coordenadora de projetos da Fundação Konrad Adenauer, Rodrigo Perpétuo, secretário-executivo do ICLEI América do Sul, e o prefeito de Ministro Andreazza, Wilson Lauret,  e que contou com apresentações culturais locais, como o grupo de dança folclórica e a banda de música popular Bado e Banda.

"Para Porto Velho é uma honra receber o Fórum Cidades Quentes. Nossa região é carente de discussões como essas, que alertam para os impactos das mudanças climáticas. Queremos alçar novos voos, e ser uma referência regional de soluções para essas questões", afirmou Robson Damasceno na abertura do Fórum Cidades Quentes.

Nesta ocasião, Damasceno anunciou a adesão de Porto Velho à Rede ICLEI – Governos Locais pela Sustentabilidade, conectando a capital de Rondônia a este movimento global de cidades para incorporar a sustentabilidade no planejamento das políticas públicas locais.

Continuidade do Fórum

Reunidos na tarde de quarta-feira (14), os representantes das capitais presentes e os especialistas convidados concordaram em dar continuidade às discussões do Fórum Cidades Quentes, buscando intensificar a troca de soluções entre as cidades para enfrentar a questão.

A pauta será discutida no próximo XV Encontro Nacional do Fórum CB27, que será realizado em Curitiba, entre os dias 21 e 23 de novembro.